Mitos.

O Dia do Colosso

Faz tempo que o gigante se levantou do chão. Já só se contam lendas sobre o dia da queda, episódio que figura apenas no inconsciente coletivo como expressão de um medo comum, o tipo de medo que define uma cultura. Com orgulho reverente, observavam-no enquanto caminhava, com os seus passos lentos, arcos de uma passada soberba, colossal. O estrondo do apoio é mudo; as vibrações apaziguam os corpos de recém-nascidos a quem as mães desejam a força física do gigante que assim ia caminhando, pé ante pé, pela terra - que se tinha moldado há milénios à cadência daqueles passos: os oceanos esperavam pela submersão do corpo, fazendo subir as marés, as espécies mais pequenas de peixes alimentavam-se da fuligem orgânica que se acumulava na barba, o batimento seco dos pés no solo do mar levantava o alimento dos seres abissais, que a transformavam em ar que a passada ajudava a trazer até à superfície. Submerso, a força dos seus membros longos, finos, agitavam as correntes, que os cardumes seguiam até ao destino das suas migrações. Quando emergia o seu enorme rosto indecifrável, de olhos verdes e cabelos brancos, os pássaros e os marinheiros cantavam e dançavam em honra do colosso, pedindo e esbracejando por novos ventos à superfície dos mares eternos: e era o seu sopro, o fôlego incrível daquela passada, que levantava as asas, as velas e as ondas. Era o mesmo sopro que permitia, em terra, que as árvores espalhassem as suas sementes. Todos paravam quando o sentiam chegar e julgava-se que até o ciclo dos astros era a forma dos céus o poderem vigiar sempre, evitando a sua fadiga e a possibilidade de queda. Os seus passos marcavam as horas de todas as coisas, depositava-se nele a medida de toda a humanidade – de tal forma que cada indivíduo era considerado apto para se aventurar no mundo aquando da vigésima passagem do colosso pelo local onde nascera. Os ritos de passagem eram o dia alto de cada vila. Grandes fogueiras e danças celebravam o corpo de centenas de jovens, que eram pintados da cor do monstro: nesta terra, interpretavam-no como sendo azul, noutra interpretavam-no como sendo ocre e noutra ainda viam-na como um tom de preto; em todas elas o ritual terminava com uma corrida desenfreada dos jovens sob os pés do gigante, tentando acompanhar a sua passada, gritando a todo o caminho. Nesta ocasião em particular, um dos corredores aguentou mais tempo do que os outros. Não só aguentou mais tempo como percorreu uma distância que poucos julgavam ser possível. Já as estrelas se mostravam no céu vermelho quando regressou. E então para espanto dos seus congéneres fatigados e dos outros aldeões proclamou assim “Olhai, vede com os vossos olhos aquilo que ditou o Colosso: eis-me aqui triunfante, ainda pleno de ar para vos falar desta forma, a vós, que lutais para que o ar nos vos escape. Não é possível desafiarem-me: eu sou a Sombra do Colosso, e assim será, até que ele passe e outro se mostre mais digno”. Não satisfeita com a sentença do seu par, uma rapariga lançou-se na sua direção, empunhando uma rocha na mão esquerda. O seu ímpeto era decisivo – o seu alvo, num golpe de astúcia, desvia o corpo à direita, disferindo uma cotovelada seca que a imobilizou. Perante a queda, petrificados, os aldeões olham para lá, onde colosso caminha no horizonte.